No dia 26 de fevereiro de 2026, tem início o Mercúrio retrógrado em Peixes, um período que se estende até 20 de março e convida à revisão, ao recolhimento e à reflexão profunda segundo a astrologia tradicional. Quando olhamos para o céu e compreendemos seus movimentos, percebemos que a astrologia é uma bússola que a natureza nos oferece para navegar pela vida. O movimento retrógrado ocorre quando o planeta aparenta perder sua velocidade normal e andar para trás em seu curso, o que a tradição entende como um momento de revisões, demoras e recolhimento.
Mercúrio é o representante do intelecto, da escrita, da oratória e do pensamento lógico que organiza o mundo prático. Peixes, por sua vez, é um signo de Água, mutável e de imensa fluidez emocional, representando a adaptabilidade e a recepção dos sentimentos. Quando o planeta da razão caminha para trás nessas águas insondáveis, a nossa mente analítica perde suas referências e o pensamento lógico se dissolve. Para compreender essa viagem de regresso sem medo, precisamos olhar para a divisão antiga do céu. Os antigos dividiram cada signo em três partes iguais, chamadas decanatos, cada qual governado por um planeta diferente. Acompanhemos as três fases desse mergulho.
A Descida pelas Correntes Agitadas
Mercúrio começa o seu recuo no terceiro decanato de Peixes, que abrange os graus finais do signo e é governado por Marte. Marte é o planeta da combatividade, possuindo uma natureza quente, seca e muito assertiva. Pense nesta fase inicial da retrogradação como a superfície de um oceano durante uma tempestade térmica.
Nas primeiras semanas, a nossa mente tenta nadar com rapidez, mas encontra uma forte resistência. A energia impulsiva de Marte debaixo de uma água turva cria uma grande frustração na forma como nos comunicamos. As palavras podem se tornar confusas e, ao mesmo tempo, carregar uma urgência que fere quem está ao redor. É o momento em que a força bruta tenta vencer o fluxo das emoções, gerando exaustão mental e mal-entendidos corriqueiros. O oceano nos avisa: lutar contra a arrebentação agora só trará cansaço. O melhor a fazer é prender a respiração, silenciar as atitudes impulsivas e permitir que a mente comece a afundar para fugir da turbulência da superfície.
A Imensidão do Mar Aberto
À medida que Mercúrio recua e entra na faixa que vai do grau 19 ao grau 10, ele adentra o segundo decanato de Peixes, que é governado por Júpiter. Júpiter é a força da expansão, da sabedoria superior e da abundância. Agora, o nosso intelecto deixa a agitação da superfície para trás e atinge o mar aberto e profundo, onde a luz do sol já não desenha limites nítidos e a água se estende infinitamente em todas as direções.
Nesta fase central, a retrogradação se torna puramente mística e reflexiva. Não há mapas nem lógica que funcionem na imensidão do fundo do mar. Somos tomados por memórias do passado, grandes ideias filosóficas e uma vontade imensa de nutrir o mundo com compaixão. No entanto, o perigo desse abismo acolhedor é a perda total de contornos. O intelecto, afogado na fertilidade infinita de Júpiter, pode se deixar levar por ilusões, criando castelos de areia no fundo do oceano. É vital, neste momento de silêncio, ancorar a sua fé e não tomar grandes decisões concretas, pois os nossos olhos estão seduzidos pelos encantos do abismo.
O Encontro com o Leito Rochoso
Finalmente, a viagem do planeta atinge os graus 9 e 8, entrando no primeiro decanato de Peixes, que é governado por Saturno. Saturno é o planeta do frio, da estrutura, do recolhimento e da severidade. Pense neste último estágio, que antecede o fim da retrogradação no dia 20 de março, como o momento em que nossos pés finalmente tocam o leito rochoso do fundo do mar.
A fluidez sonhadora e as águas amorfas de Peixes encontram o peso e a imobilidade das pedras do fundo. A expansão desmedida chega a um limite duro e necessário. É aqui que o movimento de ir para trás perde totalmente a sua força e a mente começa a se estruturar de novo, preparando-se para retornar à superfície. Saturno demanda realidade, e, portanto, as ilusões criadas no mar aberto são testadas. A comunicação se torna mais reservada, prudente e voltada para dentro. Ao tocarmos esse leito frio, ganhamos o impulso sólido de que precisaremos para voltar a subir.
A retrogradação de Mercúrio não é um naufrágio, mas um batismo na compreensão emocional. Quando a maré da lógica cede, ela nos ensina que a verdadeira sabedoria também habita nas profundezas caladas da alma.
O Vai e Vem das Marés: A Tripla Passagem
Na linguagem dos céus, a mudança de direção de um astro não ocorre de forma brusca; o planeta desacelera gradualmente até parecer imóvel, fazendo as suas estações no céu antes de inverter o seu caminho ou retomar o curso normal. É por conta desse bailado cuidadoso que Mercúrio passa três vezes pelos mesmos graus de Peixes. Primeiro, ele navega para a frente, e nós esbarramos em certas situações de forma rápida e, muitas vezes, desatenta. Depois, durante a retrogradação, a maré puxa o nosso barco para trás, forçando-nos a retornar exatamente pelas mesmas águas do passado. E, finalmente, quando a sua segunda estação chega ao fim e ele retoma o movimento direto, cruzamos essa rota pela terceira e última vez. Esse movimento nos ensina que a natureza não caminha apenas em linha reta e que aquilo que deixamos cair no fundo do mar precisará ser resgatado com paciência.
Os Tesouros e Naufrágios a Serem Revistos
Como a viagem ocorre nas águas de Peixes, os assuntos que retornarão à superfície para revisão não são da ordem da lógica fria, mas da sensibilidade pura e insondável. O que a maré nos devolve são as conversas mal resolvidas, os sentimentos profundos que tentamos silenciar e as ilusões que nós mesmos construímos. É um período em que a compreensão racional perde as suas fronteiras nítidas, obrigando-nos a reavaliar acordos silenciosos, antigas mágoas e as expectativas mágicas que nutrimos sem base na realidade. Mercúrio nos fará pescar novamente nas águas turvas da empatia, forçando a revisão dos momentos em que a compaixão se tornou um sacrifício inútil e onde nós perdemos o nosso próprio contorno para agradar o outro.
A Bússola para a Vida Prática
No cotidiano, as raízes antigas da astrologia nos alertam que um planeta retrógrado tem a sua expressão naturalmente dificultada, o que costuma gerar descontinuidades nas ações e trazer demoras, retrocessos e cancelamentos repentinos de planos. O grande conselho prático para essas semanas é não tentar remar contra a correnteza. Se as águas puxam para trás, não é a hora de hastear as velas e iniciar uma grande conquista. Suspenda a exigência por respostas imediatas, evite assinar contratos definitivos ou tomar decisões que não possam ser desfeitas depois, pois tudo o que é combinado sob esse céu denso está sujeito a grandes alterações.
Use esse tempo de recolhimento para limpar o convés, reparar as redes do seu barco e ouvir as vozes da sua intuição em silêncio. Apenas observe o que a maré traz. Quando o mensageiro seguir firme em seu curso direto, nós recuperaremos a facilidade de agir e a clareza para navegar.


